Digitalização no bolso

Com a consolidação dos pagamentos por meios digitais, os próximos passos da economia envolvem a desburocratização de processos

Por Victor Cinzento e Thaís Sylos

Dez anos após a primeira menção oficial ao Pix, a realidade econômica do País mudou completamente. Em 2016, o Banco Central (BC) lançou oficialmente a Agenda BC+, focada em aumentar a eficiência do sistema financeiro nacional e estudar a viabilidade de uma forma de pagamento instantâneo. Essas pesquisas levaram à criação do projeto que teria como resultado o advento do Pix.

Desde então, os pagamentos rotineiros têm mudado constantemente e, cada vez mais, as transferências instantâneas têm ganhado espaço. Segundo um estudo divulgado pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban), durante o ano de 2025, no Brasil, 187,5 bilhões de transações foram realizadas a partir de dispositivos móveis, os mobile bankings, um aumento de 169% entre os anos de 2020 e 2025.

Na mesma pesquisa, a Febraban analisou que 83% de todas as transações que aconteceram no País durante o período foram feitas por meio de canais digitais, sendo 78% do total através do celular. Essa relação se torna ainda mais evidente quando, para pessoas jurídicas (PJs), essas transações acontecem duas vezes por dia, em média. Tamanho sucesso da digitalização da economia revela facetas positivas do avanço econômico, mas também acende alertas para novos problemas.

Lado positivo

A digitalização da economia zerou os custos com transações, o que facilita o cotidiano das pessoas. 

“Pessoas que não são formalizadas, como ambulantes, só podiam ser pagas com dinheiro e não tinham acesso às máquinas de cartão. Hoje, reduziu-se esse custo também”, explica Juliana Inhasz, professora de Economia do Insper. Para ela, a mudança gera um aumento de eficiência econômica, uma vez que o setor produtivo consegue receber mais rápido e pagar mais fácil, administrando melhor o caixa.

Ainda de acordo com o estudo da Febraban, 80% das transações via Pix para pessoas físicas foram realizadas de forma instantânea, ou seja, vendas e serviços que antes precisavam de um equipamento que aceitasse cartões magnéticos ou negociações com talões de cheque passaram a movimentar dinheiro em poucos cliques.

Durante todo o ano de 2025, segundo o BC, mais de R$ 35,3 trilhões foram movimentados apenas por meio do Pix. Esse número e a quantidade absoluta de transações têm crescido anualmente desde o lançamento da ferramenta e, para especialistas, a tendência é continuar assim.

“O sistema Bretton Woods está para as mudanças das regras do dinheiro entre países, no século 20, assim como o Pix está para a forma com que o dinheiro circula no Brasil, no século 21”, declara o também economista e sócio da Capibaribe Consultoria Leonardo Ferreira.

Ainda, a rastreabilidade dos novos sistemas bancários surge como um ganho para a segurança nacional. Para Ferreira, a digitalização gera maior rastreabilidade das operações, o que contribui para a redução da informalidade, a melhoria da arrecadação tributária e o fortalecimento dos mecanismos de combate à fraude e à lavagem de dinheiro.

Rastreando movimentações financeiras, diversos esquemas de lavagem de dinheiro, desvio de verbas e fraudes fiscais foram desmantelados pelas polícias locais, regionais e nacional, como a Operação Fluxo Oculto, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo.

Na ocasião, foram detectadas seis fintechs que atuavam como braços financeiros do grupo criminoso Primeiro Comando da Capital (PCC). Por meio delas, foram lavados e desviados mais de R$ 26 bilhões e, a partir da rastreabilidade dos valores, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) chegou aos responsáveis pelo esquema. 

Pontos de atenção

Tamanha praticidade e amplitude do serviço permitem que golpes sejam criados e veiculados. Nos estudos da Febraban, 100% dos bancos ouvidos elegeram a cibersegurança como prioridade absoluta e apontaram a esse tema um nível de relevância alto. Em seu portal, a federação alerta para mais de 40 modalidades de golpes digitais que afetam todas as classes sociais do País.

Também, é preciso olhar para a inclusão digital entre populações mais marginalizadas e envelhecidas. Segundo uma pesquisa do BC de 2025, cerca de 76% da população utiliza ou tem acesso ao Pix. “Temos que garantir que a digitalização amplie a inclusão. Ela não pode colocar uma barreira e deixar pessoas de fora dessa nova realidade”, explica Inhasz.

Para os economistas, o impacto direto  de processos inovadores ampliam a necessidade do governo de regulamentar esse crescimento, sem limitar o ambiente para os investidores.

“Atualmente, é caro investir em tecnologia e digitalização. É natural que apenas grandes plataformas gastem ativamente nessa frente. Com isso, o governo deve proteger o mercado e garantir que esses conglomerados não detenham tanto poder e influência diante da população”, alerta a professora do Insper.

Outra preocupação iminente, mas controlada, é referente à “corrida aos bancos” — um movimento atrelado a grandes crises financeiras em que as pessoas recorrem aos valores armazenados em conta e tentam sacar simultaneamente. Com a digitalização e o fácil acesso aos recursos, é possível que, em questão de segundos, milhões de pessoas saquem suas economias e afetem diretamente o fluxo financeiro nacional. 

Próximos passos

Desburocratizar processos financeiros é uma maneira de garantir a manutenção do sucesso de instrumentos como o Pix. Foi pensando nisso que o projeto do Real Digital (Drex) foi criado. Um Drex equivale a um real, sendo a moeda em sua forma digitalizada e independente da cotação da versão física.

Em análise desde 2023 e com previsão de lançamento ainda em 2026, a ideia é que o Drex possa substituir o real em ambientes digitais, como transações virtuais. O contrário também é válido: quando houver a necessidade de cédulas e moedas, é possível substituir o Drex por Real.

“O Drex é mais do que uma moeda, porque ele não é de fato uma. Ele recebe esse nome pois vai facilitar as trocas entre agentes. O principal ganho dele não é como moeda, mas sim na automatização de ações internamente nas negociações”, afirma Inhasz.

Para a professora do Insper, essa alteração permite uma automatização de diversas cadeias complexas e demoradas que, com o avanço da tecnologia, podem retirar inclusive a necessidade de alguns serviços cartoriais.

“Essa mudança pode elevar significativamente a produtividade do País, desde que seja acompanhada por investimentos em infraestrutura digital, educação e segurança cibernética”, opina Ferreira. De acordo com Inhasz, será possível reduzir custos das operações, tornando o sistema mais ágil e menos burocrático.

O Real Digital ficará hospedado em um sistema virtual protegido e gerido pelo Banco Central, o que garante mais segurança e confiabilidade para os cidadãos, mas também para investidores do exterior.

Com tais avanços tecnológicos, a tendência é um aumento considerável na produtividade da economia, uma vez que, reduzindo os custos com intermediários e processos burocráticos, as empresas terão mais verba para destinar a outras frentes, tornando a economia mais produtiva. 

Para ambos os especialistas, os avanços em custos operacionais permitirão a criação de um sistema financeiro mais competitivo. Com isso, novos participantes poderão se lançar dentro da concorrência, aumentando a competitividade e reduzindo a barreira de entrada nos principais mercados do País.

“Em longo prazo, os benefícios da digitalização se traduzirão em questões para além da tecnologia e afetarão diretamente a economia, a fazendo crescer de forma sustentável”, reflete Inhasz.

“O desafio não está na inflação provocada pela tecnologia, mas na necessidade de adaptar os instrumentos tradicionais de política econômica a uma economia digital, de forma a acompanhar, de paralelo, tais efeitos”, conclui Ferreira.

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