Promessas para a economia

Entre ajuste fiscal, investimentos e crescimento, quais são as possíveis prioridades para 2027?

Por Barbara Câmara e Luís Filipe Pereira

O Brasil chega às eleições de 2026 com uma economia que ainda cresce, mas enfrenta desafios para sustentar esse ritmo. No primeiro trimestre, o Produto Interno Bruto (PIB) avançou 1,1% em relação aos três meses anteriores, e 1,8% na comparação anual. Em valores correntes, a economia movimentou R$ 3,3 trilhões no período. Ao mesmo tempo, a taxa básica de juros permanece elevada: após quatro cortes consecutivos, a Selic chegou a 14% ao ano em agosto.

O cenário fiscal adiciona uma camada de complexidade à disputa presidencial. A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) alcançou 81,1% do PIB em maio, equivalente a R$ 10,6 trilhões, enquanto o setor público acumulou déficit primário de R$ 149 bilhões em 12 meses. No mesmo período, os juros nominais somaram R$ 1,1 trilhão, o correspondente a 8,48% do PIB.

É nesse ambiente que os candidatos à Presidência da República terão de apresentar suas propostas para a economia a partir de 2027. O desafio envolve conciliar diferentes objetivos: controlar a trajetória das contas públicas sem comprometer investimentos, criar condições para a redução sustentável dos juros, estimular a atividade econômica e, ao mesmo tempo, manter a inflação sob controle. A questão central é até onde o próximo governo poderá ampliar despesas e qual deverá ser o espaço para um ajuste fiscal.

Para a economista e professora da Fundação Getulio Vargas (FGV) Carla Beni, responsabilidade fiscal e investimento público não são necessariamente objetivos incompatíveis. Na avaliação dela, o ponto principal é definir onde os recursos públicos serão aplicados e preservar espaço para investimentos, ao mesmo tempo em que despesas obrigatórias sejam avaliadas periodicamente. A economista também chama atenção para o custo da dívida pública e seus efeitos sobre a economia real.

Na visão de Beni, uma das prioridades do próximo governo deverá ser a continuidade da reforma tributária, já aprovada e em fase de implementação, além de uma política de desenvolvimento industrial. “Nenhum país do mundo consegue se desenvolver ou conseguiu, na história, se desenvolver sem uma indústria forte”, pondera. A economista também defende uma estratégia de longo prazo para o aproveitamento de minerais críticos, como as terras raras, com foco no processamento e na agregação de valor dentro do País.

A busca por esse equilíbrio também está no centro da Agenda de Políticas Públicas para os Presidenciáveis, elaborada pelo Instituto Esfera a partir de análises técnicas, diálogo com especialistas e acompanhamento do debate legislativo e regulatório. O documento organiza propostas em cinco eixos e, na área econômica, destaca: responsabilidade fiscal e gastos tributários; comércio exterior e minerais críticos; eficiência regulatória; ambiente de negócios; política monetária e crédito.

Entre as prioridades apontadas pelo Instituto Esfera estão a criação de critérios objetivos para concessão e manutenção de benefícios fiscais, a adoção de cláusulas de caducidade para renúncias tributárias, a exigência de contrapartidas para empresas beneficiadas, a redução da litigiosidade e a simplificação regulatória. 

Na política monetária, a agenda propõe medidas para fortalecer a transmissão dos juros e reduzir estruturalmente o custo do capital. A partir desse diagnóstico, a Revista Esfera traz as propostas dos candidatos para a responsabilidade fiscal, investimento e crescimento da economia a partir de 2027.

Luiz Inácio Lula da Silva

Atual presidente da República e candidato à reeleição pelo PT, Luiz Inácio Lula da Silva nasceu em Garanhuns (PE) e construiu sua trajetória política a partir do movimento sindical no ABC paulista. Fundador do Partido dos Trabalhadores, foi presidente entre 2003 e 2010 e retornou ao cargo em 2023. Em agosto, aprovou as diretrizes do plano de governo para um eventual quarto mandato, organizado em 13 eixos.

Na economia, o documento combina a defesa da responsabilidade fiscal com uma estratégia de expansão dos investimentos públicos e privados. A proposta é manter o arcabouço fiscal, controlar o crescimento das despesas primárias, melhorar a eficiência do gasto e buscar a redução dos juros com inflação sob controle.

O programa também prevê elevar a taxa de investimento, ampliar obras de infraestrutura e fortalecer mecanismos de crédito produtivo. Entre as medidas citadas está, ainda, a defesa de um pacto entre os Poderes para reduzir despesas obrigatórias e melhorar a qualidade das emendas parlamentares.

A estratégia econômica de um eventual novo mandato também inclui a redução sustentada do custo do capital, condicionada à estabilidade de preços e à responsabilidade fiscal. Para isso, propõe aprofundar o mercado de capitais, ampliar instrumentos de financiamento de longo prazo e fortalecer a atuação de bancos e fundos garantidores. 

Flávio Bolsonaro

Senador pelo Rio de Janeiro e candidato à Presidência da República pelo PL, Flávio Bolsonaro é filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Advogado e empresário, iniciou a carreira política como deputado estadual, cargo que exerceu por quatro mandatos, antes de chegar ao Senado, em 2019. Na campanha de 2026, a coordenação de Rogério Marinho, vice da chapa, afirmou à imprensa que economia, segurança pública e combate à corrupção serão os principais eixos da candidatura.

Na área econômica, Flávio defende uma política de maior contenção das despesas públicas, com uma regra fiscal que estabeleça um gatilho para o corte de gastos quando a dívida pública atingir determinado patamar. O candidato ainda não especificou qual seria esse limite. 

Em declarações recentes, afirmou que uma dívida próxima de 81% do PIB representa um quadro de excesso de gastos e defendeu a redução das despesas como caminho para enfrentar o elevado custo dos juros. A estratégia também prevê tornar a máquina pública mais enxuta, inclusive com a redução do número de ministérios e o uso de inteligência artificial na gestão.

Entre as medidas mencionadas pelo candidato está a manutenção do Bolsa Família e a busca por novas fontes de receita, com destaque para a exploração de petróleo na Margem Equatorial. Flávio também afirma que não pretende promover cortes sobre aposentados e pensionistas, e defende mudanças na estrutura previdenciária por meio de diferentes fundos de lastreamento. 

A equipe econômica sinaliza ainda a intenção de reduzir impostos e retomar uma agenda de gestão associada ao governo Jair Bolsonaro. Até a publicação desta edição, a equipe do senador não respondeu às questões propostas pela Revista Esfera.

Renan Santos

Renan Santos é empresário e dirigente do Movimento Brasil Livre (MBL), grupo do qual foi um dos fundadores. O candidato à Presidência da República pelo Missão apresenta uma agenda econômica centrada na redução do crescimento das despesas obrigatórias, na revisão de benefícios fiscais e na ampliação do espaço para investimentos privados. A proposta parte da avaliação de que mudanças estruturais nas regras de gastos são necessárias para conter a expansão automática das despesas públicas.

Entre as principais medidas está a desvinculação dos benefícios da Previdência e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) do salário mínimo, com correção pela inflação. Santos propõe desvincular os pisos constitucionais de saúde e educação da receita, revisar renúncias fiscais com base em critérios de produtividade e eliminar penduricalhos e supersalários no serviço público. 

Na tributação, defende limitar a alíquota do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) em 24%, com posterior redução, cobrança pelo regime de caixa e retirada do Imposto Seletivo sobre setores produtivos. Santos também sugere modernizar a CLT, com pagamento por hora e maior liberdade de negociação, além de criar mecanismos para ampliar a transição de beneficiários do Bolsa Família para o mercado formal, sem extinguir o programa. 

Augusto Cury

Escritor, psiquiatra e estreante na política, Augusto Cury é candidato à Presidência da República pelo Avante. Apresenta-se como uma alternativa à polarização entre esquerda e direita, definindo-se como um candidato de “mente de direita e coração social”. Seu plano de governo reúne 18 projetos, com propostas que combinam responsabilidade fiscal, empreendedorismo, reindustrialização e desenvolvimento regional.

Na área econômica, Cury estabelece como uma das principais metas a busca por um déficit público próximo de zero ao longo do mandato, com redução de desperdícios, metas de eficiência para os ministérios e diminuição gradual da dívida pública. 

O candidato também aposta no empreendedorismo como recurso para geração de emprego e renda. A reindustrialização é outro eixo da agenda, com a meta de estimular a criação de 10 mil novas indústrias, sobretudo agroindústrias. Cury ainda defende transformar o Brasil em uma potência exportadora industrial e tecnológica, com investimentos em áreas como inteligência artificial, robótica, semicondutores, biotecnologia e indústria farmacêutica, além da criação de uma Zona Nacional de Exportação.

Ronaldo Caiado

Ex-governador de Goiás e candidato à Presidência da República pelo PSD, Ronaldo Caiado é médico e iniciou sua trajetória política como deputado federal, cargo que exerceu por cinco mandatos. Também foi senador por Goiás antes de governar o estado entre 2019 e 2026. Na disputa presidencial, apresenta o controle das contas públicas, as reformas estruturais e a redução dos juros como pilares de sua agenda econômica.

Caiado defende um ajuste fiscal amplo para estabilizar a dívida e recuperar a confiança dos investidores. Em uma das propostas apresentadas, afirma que pretende interromper o crescimento da relação entre dívida e PIB no primeiro ano de governo e, posteriormente, reduzi-la em um ponto percentual ao ano. O programa também prevê evitar a criação de novas despesas e revisar benefícios fiscais.

A equipe econômica propõe ainda reduzir o ritmo de crescimento real das despesas públicas para cerca de 1% ao ano, ante o limite de 2,5% acima da inflação previsto atualmente, além de rever o volume de emendas parlamentares e os chamados supersalários nos Poderes. A redução dos juros aparece como consequência esperada desse processo. 

Até a publicação desta edição, a equipe do candidato não respondeu às questões propostas pela Revista Esfera.

Romeu Zema

Ex-governador de Minas Gerais e candidato à Presidência pelo Novo, Romeu Zema é empresário e iniciou sua trajetória política ao ser eleito governador em 2018, reeleito em 2022. Sua agenda econômica parte da defesa de um Estado mais enxuto e de um ajuste fiscal concentrado na redução das despesas públicas. Entre as propostas está a privatização de estatais federais, começando por Petrobras, Banco do Brasil e Correios, além da ampliação de medidas de liberdade econômica.

Na área fiscal e tributária, Zema advoga por “fazer o governo caber no bolso do brasileiro”, com redução de despesas e revisão de impostos. O candidato também defende medidas para diminuir o chamado Custo Brasil, por meio da melhoria da infraestrutura, simplificação tributária e redução dos juros. Para estimular a geração de empregos, propõe levar a Lei da Liberdade Econômica a estados e municípios, dispensando alvarás e licenças para atividades de baixo risco. 

A agenda inclui ainda mudanças nas relações de trabalho, com uma alternativa à CLT que permita contratos por hora e maior flexibilidade na definição de jornadas e pagamentos. Zema também propõe reduzir o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e facilitar a negociação de créditos a juros menores. No campo social, pretende transformar o Bolsa Família em uma porta de entrada para o mercado de trabalho, com qualificação profissional, encaminhamento para vagas e apoio ao empreendedorismo.

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