Com ou sem Trump, a COP30 vem aí

Conferência abre oportunidade para Brasil assumir a dianteira da questão climática e sinaliza que China pode ocupar espaço dos EUA

Por Françoise Terzian

“Não há um plano B porque não há um planeta B.” Essa frase ganhou força pela voz do sul-coreano Ban Ki-moon, então secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que a repetiu antes da 21ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP21), em 2015, encontro que viria a resultar na assinatura do Acordo de Paris, o tratado internacional — adotado por 193 países mais a União Europeia — que visa reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE). 

Dez anos depois, com a forte guinada da extrema direita pelo mundo, Donald Trump voltou à Casa Branca já mostrando, desde o primeiro dia de mandato, a que veio. Do anúncio da saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris à decisão de acabar com os canudos de papel, Trump coloca as práticas Ambiental, Social e de Governança (ESG, na sigla em inglês) em xeque justamente no ano em que o Brasil sedia a COP30. 

A pergunta que muitos vêm se fazendo é: como fica a COP30 diante do redesenho promovido por Trump? Há risco real de a conferência ser impactada a ponto de ser esvaziada? Embora o comandante da maior potência do mundo tenha seu inegável peso, a hipótese é considerada improvável pela grande maioria, e a resposta está diretamente conectada à urgência do tema.

Para Helder Barbalho, governador do Pará, estado que vai sediar o evento em novembro, o sentimento é justamente o contrário. Ele vê uma mobilização ainda maior se formando em prol dos seis temas-chave a serem tratados na COP30. “É claro que a mensagem do presidente dos EUA gera incertezas a respeito de qual papel os EUA terão. Porém, se por um lado há essa dúvida a respeito do governo federal americano, os estados subnacionais [dos EUA], que são potências de âmbito e de grandeza global, que têm legislações próprias e lideranças autônomas, estarão participando como estados subnacionais, o que deve ser visto como uma extraordinária oportunidade”, avalia. 

Tércio Ambrizzi, diretor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), compartilha a mesma opinião. Com ou sem Trump, para ele, a COP30 será a mais importante da história. “Os EUA têm estados independentes, e vários deles provavelmente participarão e já têm uma ação mais proativa no combate às mudanças climáticas. Esta, inclusive, é a oportunidade para que outros países, como a China, tomem o lugar dos americanos”, sugere.

Do lado do setor privado que apoia as ações para combater as mudanças climáticas, Manuela Larangeira Kayath, CEO da MDCPar, lembra que, independentemente de Trump, há estados, como o da Califórnia, e várias prefeituras dos EUA se unindo em benefício de ações verdes. “Fora que há várias empresas que já fizeram investimentos em transição. Não acho que haverá uma parada nesse movimento”, observa. O que pode acontecer é o governo estadunidense reduzir ou paralisar de vez os incentivos. Esse tipo de decisão de Trump pode ser um tiro no pé. Kayath lembra ainda que os EUA podem perder o grande negócio de alta demanda que é a oferta de tecnologia, a custos competitivos, para promover a transição energética.

Seguindo a linha de raciocínio de que os EUA tendem a perder com uma atitude antiESG, Ambrizzi acredita que, se todos os outros países realmente estabelecerem um compromisso e encontrarem um denominador comum para que possam avançar e combater as emissões, mesmo os EUA e, eventualmente, outros países que os seguem, devem repensar. “Quando a população começar a observar que alguns produtos têm uma característica mais poluente e outros mais sustentáveis, ela vai enveredar para os mais sustentáveis”, acredita Ambrizzi. 

Barbalho destaca ainda a presença de companhias privadas que são signatárias de compromissos de neutralização de emissões. “Nós devemos valorizar essas relações e, claro, não desistir do bom senso e do convite para que o governo federal americano possa estar presente ativamente e participar das discussões. É importante dissociar o Acordo de Paris da presença dos EUA na Conferência das Partes. Os EUA saem do Acordo de Paris, mas continuam membros da Conferência das Partes, que é exatamente a COP”, analisa o governador.

A COP, lembra, não é um evento ambiental, mas transversal, de comportamento de sociedade, de desenvolvimento, de oportunidades de negócios verdes e, claro, com impacto e com direcionamento às metas de redução de emissões de GEE. “Essa é a pauta que coloca o Brasil como grande líder global, sendo vanguarda e locomotiva dessa agenda”, reforça Barbalho.

Ambrizzi complementa: “Eu sinto que a não presença dos EUA pode fazer com que o Brasil ganhe mais protagonismo e consiga integrar outros países numa visão forte de combate às mudanças climáticas”.

Como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já disse, “uma coisa é discutir a Amazônia no Egito, outra coisa é discutir a Amazônia em Berlim, outra coisa é discutir a Amazônia em Paris. Agora, não. Agora nós vamos discutir a importância da Amazônia dentro da Amazônia. Nós vamos discutir a questão indígena vendo os indígenas. Nós vamos discutir a questão dos povos ribeirinhos vendo os povos ribeirinhos e vendo como eles vivem”.

Golaço do Brasil

A nomeação de André Corrêa do Lago para presidente da COP30 é consenso no mercado: foi um acerto. O fato de ser experiente e ponderado chama atenção até do meio acadêmico. “Acho que o presidente Lula acerta profundamente quando escolhe alguém da estatura e do perfil do embaixador Corrêa do Lago, com sua elevada experiência como grande negociador nas últimas 15 COPs”, avalia o governador Helder Barbalho.

Corrêa do Lago é a pessoa certa para enfrentar todo clima tenso que pode vir por aí, especialmente depois de Trump e os consecutivos choques que tem causado no mundo, além depoimentos duros, como o dado pelo CEO da Vale, Gustavo Pimenta, que disse recentemente ao Estadão/Broadcast que as metas climáticas definidas por companhias globais são ultra-agressivas e, em alguns casos, pouco realistas. “Vários líderes estão percebendo que não é possível descarbonizar certas indústrias porque o custo é desproporcional”, afirmou.

Para Ambrizzi, o custo deixa de ser inviável quando há uma integração entre as empresas, acompanhada de um plano de ação ao lado do governo. “Todos têm que se unir em direção à mitigação e adaptação aos eventos extremos.”

A resistência pré-COP revela o tamanho da barreira que Corrêa do Lago terá que superar para costurar os melhores acordos durante a COP30. Ele mal assumiu e já alertou, via Agence France-Presse, da importância de os países apresentarem metas de redução das emissões de GEE “mais ambiciosas possível”, com a limitação do aumento da temperatura global a 1,5 °C em relação à era pré-industrial, como estipulado pelo Acordo de Paris.

Estrutura

Em paralelo, a cidade-sede da COP30 vive sua fase de canteiro de obras. Há inúmeros projetos de construção, revitalização e ampliação por Belém do Pará. A maior parte do investimento total de R$ 6 bilhões que governo federal, estadual e municipal estão aportando na região fazem parte de uma carteira de obras variadas. Há desde projetos de mobilidade, com a abertura de avenidas, até novos veículos para transporte coletivo.

Todas, garante o governador, absolutamente dentro do calendário. “Nós já começamos, inclusive, a fazer entregas de canais de macrodrenagem, agora, no aniversário de Belém”, conta Barbalho. “Outras obras têm previsão de entrega entre maio e setembro, dentro do cronograma preestabelecido.”

Um tema que tem tirado o sono de muita gente refere-se à hospedagem. “Não tem uma pessoa no Itamaraty que não esteja preocupada com a COP30”, revela Ivana Vilela, presidente do Sindicato Nacional dos Servidores do Ministério das Relações Exteriores (Sinditamaraty). São dois pontos que a afligem. O primeiro é a falta de pessoal. “Precisamos de mais servidores e precisamos da liberação da contratação do cadastro de reserva, que já tinha previsão orçamentária, mas que até agora o Ministério da Gestão não liberou”, explica Ivana. A COP, segundo ela, é uma cidade viva, com muita gente, muita reunião e muita estrutura, o que demanda muitos braços.

A outra preocupação refere-se à acomodação dos servidores. Como já há gente reclamando da falta de quartos em hotel, a busca por apartamentos para locação em plataformas como Airbnb tem assustado pelos valores exorbitantes. “É caso de R$ 1 milhão para os dez dias, para uma delegação de dez pessoas”, comenta.

Em relação à hospitalidade, Barbalho diz que ainda há uma virada de chave que vai acontecer a partir da oferta de novos leitos, a exemplo dos cinco mil previstos em navios que estão sendo contratados pelo governo federal, além das quatro novas operações de hotéis de alto padrão que encontram-se em obras e de outras alternativas na mesa, como a adaptação de escolas. “São várias as soluções pensadas.”

Em relação às críticas referentes aos valores exorbitantes cobrados por alguns aluguéis em Belém durante a COP30, o governador diz que há, naturalmente, uma especulação, porque é algo novo sobre o aspecto do mercado local, que é o Airbnb. “Nós saímos de 700 imóveis cadastrados para quatro mil, a partir de uma campanha feita pelo governo do estado para que nós pudéssemos apresentar essa oportunidade para a comunidade local. E, como há uma precificação em moeda internacional, particularmente em dólar, é natural que isso fuja do escopo regular”, pondera.

Para ele, haverá um processo natural de acomodação dessas ofertas e preços. Barbalho destaca ainda que a oportunidade de hospitalidade da COP dividida com a sociedade foi a melhor saída. “Vai circular dinheiro na cidade, na economia e não ficar tudo centralizado em um operador hoteleiro ou operador de navio.”Procurada pela Revista Esfera para mais informações acerca da estrutura que está sendo desenvolvida para receber o evento em novembro, a organização da COP30 não respondeu.

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