Gigante que se transforma

Pesquisador vê Estados Unidos em ‘reconfiguração profunda’ e descreve conjunto de valores e crenças que vão ajudar a definir nova identidade dessa potência

Por Isabella Santos

Os Estados Unidos celebraram, em 4 de julho de 2026, os 250 anos da assinatura da Declaração de Independência de 1776. A data, concebida tradicionalmente para unir a nação em torno de seus ideais fundadores de liberdade e república, revelou-se um reflexo direto do atual momento de divisão interna.

Para entender o que molda o conjunto de valores, crenças e costumes que vão definir a identidade dessa potência global nas próximas décadas, a Revista Esfera ouviu Lucas Leite, Professor Doutor de Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT/Ineu). “Minha avaliação é que os Estados Unidos não estão entrando em colapso, e sim passando por uma reconfiguração profunda, de uma liderança liberal hegemônica para uma potência mais abertamente coercitiva, transacional e nacionalista”, define.

“O aniversário de 250 anos da independência cai como uma ironia histórica sobre um país que construiu sua hegemonia justamente vendendo ao mundo a gramática do liberalismo, dos direitos e do comércio aberto, e que agora rompe com essa mesma gramática pela mão de quem invoca os fundadores”, complementa. 

O fator Trump

No centro deste cenário está o Presidente Donald Trump. Retornando à Casa Branca sob o forte eco de suas diretrizes nacionalistas, Trump utilizou as comemorações do 4 de Julho não apenas como um tributo à história americana, mas como uma expressiva vitrine política. O mandatário projetou a concretização de sua “nova era de ouro” para o país, enfatizando avanços em inovação, soberania e políticas de segurança nacional, fundamentadas no protecionismo rigoroso.

A liderança de Trump neste mandato difere de sua primeira passagem pela administração federal. O atual governo demonstra maior estruturação institucional e urgência na implementação de pautas conservadoras rígidas, com destaque para a intensificação de políticas migratórias severas e a postura implacável no comércio exterior.

Ao mesmo tempo, o presidente enfrenta um cenário econômico desafiador, com a pressão inflacionária sobre o custo de vida e o preço de combustíveis mantendo índices de aprovação polarizados, que acentuam o racha na opinião pública: de acordo com a pesquisa Reuters/Ipsos, divulgada em 3 de agosto, a aprovação de Trump é de 35% e a desaprovação é de 63%. E, pela primeira vez em uma década, a maioria (37% frente a 36%) preferem democratas a republicanos na gestão da economia.

Tensões comerciais

Em consonância com a promessa de colocar a economia doméstica no centro de sua estratégia política, a administração Trump intensificou o uso de barreiras protecionistas, consolidando o que economistas e o mercado internacional passaram a chamar de “tarifaço”. Contudo, as tarifas geram atritos com aliados tradicionais e alimentam pressões inflacionárias internas, encarecendo produtos de consumo diário e insumos.

Lucas Leite aponta que “o problema de fundo é que o governo dispõe de pouquíssimo instrumento material para aliviar a pressão de preços que ele próprio ajudou a criar e, por isso, aposta quase tudo em narrativa e em deslocamento de culpa”.

O pesquisador reforça que “os números são cruéis para quem prometeu derrotar a inflação: segundo o Pew Research, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) projeta que os EUA podem fechar o ano com a pior inflação do G7, algo em torno de 4,2%, e as tarifas funcionam como um imposto regressivo sobre o consumo, já que cerca de 90% do custo tarifário foi pago por consumidores e empresas americanas, e não pelos exportadores estrangeiros”.

Geopolítica e a postura frente aos conflitos globais

O cenário internacional sob os 250 anos da república é marcado por crises geopolíticas profundas, especialmente com a persistência de zonas de conflito na Europa Oriental e no Oriente Médio.

Amparado pela prerrogativa constitucional do Artigo II, Trump adotou uma diplomacia de transações diretas e ceticismo em relação a pactos multilaterais tradicionais. A gestão republicana pressiona por renegociações no financiamento de alianças militares, como a Organização do Tratado da Atlântico Norte (Otan), e busca impor acordos rápidos para o encerramento de conflitos armados, muitas vezes gerando apreensão entre aliados ocidentais quanto à estabilidade da segurança global e à manutenção da ordem internacional construída no pós-guerra.

“No plano externo, o afastamento da Europa é o dado mais eloquente do reordenamento. Trump ameaçou tomar a Groenlândia da Dinamarca, retirou cinco mil soldados da Alemanha em reação às críticas do Chanceler [Friedrich] Merz, cogitou punir e até suspender a Espanha da Otan por causa da guerra contra o Irã, e transformou a cúpula da aliança em Ancara num exercício de humilhação dos parceiros. É aqui que aparece a nuance que eu faço questão de sublinhar contra a leitura fácil de uma ‘internacional da direita’ coesa: essa aliança global é real, porém desigual e cheia de fraturas”, aponta Lucas Leite.

“Com a Europa, ela está se esgarçando, porque a lógica do America First exige subordinação, e isso colide com o nacionalismo soberanista que move a própria direita europeia. Com a direita latino-americana, ao contrário, a aliança se sustenta melhor, e o motivo é justamente a assimetria: Milei, Nayib Bukele [Presidente de El Salvador] e o clã Bolsonaro operam numa posição de dependência que aceita a subordinação como preço da proteção ideológica”, complementa Leite.

Doutrina Donroe

Neste sentido, a reconfiguração da política externa de Washington se projeta diretamente sobre a América Latina, impulsionada pela retomada e atualização de conceitos históricos fundamentais. A Doutrina Monroe, formulada em 1823 pelo presidente James Monroe, estabelecia inicialmente que o continente americano não deveria mais ser alvo de colonização ou interferência por potências europeias, sob o lema informal de “América para os americanos”, enquanto os EUA se manteriam afastados das disputas da Europa.

No atual cenário, o segundo governo de Donald Trump resgatou formalmente o pensamento por meio de uma nova estratégia de segurança nacional e da chamada “Doutrina Donroe”.

Atualizada para o século 21, a política busca conter a influência de potências rivais, com foco principal na China, na Rússia e no Irã, combinando pressões diplomáticas, tarifas, inteligência e ações militares regionais para reafirmar a preeminência e o controle estratégico de Washington sobre o continente.

Eleições de meio de mandato

A nível doméstico, o ambiente interno polarizado converge para as eleições de meio de mandato (midterms), que ocorrem ao longo deste ano nos diversos estados americanos. O pleito coloca o Partido Republicano e o Partido Democrata em disputa pelo controle do Congresso.

Para o governo Trump, as eleições funcionam como um referendo. Caso os democratas consigam reverter as maiorias legislativas na Câmara dos Representantes ou no Senado, a segunda metade do mandato presidencial poderá enfrentar travamentos institucionais e investigações ampliadas. Por outro lado, uma vitória republicana consolidará o projeto político do atual presidente e servirá de plataforma definitiva para a correlação de forças rumo à sucessão presidencial de 2028.

Questionado sobre os riscos reais para a administração caso haja uma derrota legislativa, Lucas Leite esclarece: “Perder a Câmara significaria, na prática, perder a iniciativa legislativa e ganhar de presente uma oposição com poder de investigação agressiva, com intimações, comissões e capacidade de abrir processos de impeachment. Só que impeachment sem os dois terços do Senado é gesto político, não remoção. E aqui está o ponto decisivo: o Senado é o verdadeiro ‘corta-fogo’ do trumpismo. Os republicanos hoje controlam o Senado por 53 a 47, e o mapa de 2026 é favorável a eles, de modo que os democratas dificilmente tomam a casa.”

O especialista também destaca o impacto sistêmico do pleito: “O risco genuíno para Trump não é a remoção, que é improvável, e sim a deslegitimação política, a perda de controle sobre a narrativa de sucesso e a abertura de uma crise de sucessão dentro do próprio campo conservador rumo a 2028. Vale ainda registrar um risco sistêmico: dado o precedente de 2020, uma derrota expressiva pode vir acompanhada de contestação do resultado e isso, sim, seria um teste às instituições.”

Box informativo (fundo azul):

O que são as midterms?

As eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, ocorrem nos Estados Unidos no meio do mandato presidencial e renovam parte importante do poder legislativo. Em 2026, os eleitores escolherão os 435 deputados da Câmara e 35 dos 100 senadores, além de 36 governadores e outros cargos estaduais. 

Os deputados têm mandatos de dois anos, enquanto os senadores permanecem no cargo por seis anos. A votação ocorre sem segundo turno, e o voto não é obrigatório. O resultado pode alterar o equilíbrio de forças no Congresso e facilitar ou dificultar a aprovação da agenda do presidente.

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