O Brasil atravessa um momento em que os desafios para o desenvolvimento ultrapassam a agenda de um governo e exigem uma visão mais ampla sobre o papel e a capacidade do Estado. Foi a partir dessa perspectiva que a quarta edição do Seminário Brasil Hoje, realizada pela Esfera Brasil, reuniu autoridades públicas, empresários, especialistas e lideranças políticas para discutir os principais temas que estarão no centro das decisões do País.
Com o tema “Do governo ao Estado”, o encontro colocou em debate questões estratégicas para a construção de um projeto nacional de longo prazo, passando por soberania e competitividade internacional, inteligência artificial e educação, segurança pública, universalização do saneamento e os desafios para a retomada do crescimento econômico.
Na abertura dos debates, o Prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, contribuiu com a discussão sobre os desafios de gestão, desenvolvimento e ambiente de negócios no Brasil.

Soberania e competitividade
A posição do Brasil diante das transformações da economia mundial esteve no centro do primeiro painel do seminário. Com o tema “Soberania e competitividade no mercado global”, representantes do setor produtivo, do Congresso e do governo federal discutiram como o País pode ampliar sua relevância internacional sem abrir mão de sua capacidade de definir os próprios interesses estratégicos.
Participaram do debate Gilberto Tomazoni, CEO Global da JBS; Luiz Tonisi, Presidente da Qualcomm para a América Latina; Laércio Oliveira, Senador da República por Sergipe; e Márcio Elias Rosa, Ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
O painel colocou em perspectiva a necessidade de combinar abertura e inserção internacional com uma estratégia capaz de fortalecer a indústria, ampliar investimentos, incorporar tecnologia e aumentar a produtividade brasileira.
Corrida ao Senado por São Paulo
Em ano eleitoral, o cenário político também esteve presente entre os principais debates da quarta edição. O painel “Corrida ao Senado: Quem fala por São Paulo?” reuniu os candidatos Ricardo Salles e Guilherme Derrite para discutir os principais desafios do estado e as pautas que deverão mobilizar o eleitorado paulista.
Salles defendeu uma atuação mais alinhada às demandas paulistas: “Nós, como senadores por São Paulo, temos que ser paulistas acima de tudo”. Derrite destacou a responsabilidade do Senado na aprovação de projetos que reflitam as demandas da sociedade.
A programação contou ainda com a participação do marqueteiro Sergio Lima; dos coordenadores do núcleo econômico da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, Adolfo Sachsida e Daniella Marques; e da Ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck.

Inteligência artificial
A transformação provocada pela inteligência artificial (IA) também ganhou espaço central no seminário. Mais do que discutir os impactos da nova tecnologia, o painel “IA: Uma agenda para o Brasil” abordou como o País pode preparar sua população para uma economia em rápida transformação.
Iona Szkurnik, CEO da Education Journey; Ricardo Cavallini, autor e Global Faculty da Singularity University; e Orlando Silva, Deputado Federal por São Paulo, discutiram os impactos da inteligência artificial sobre educação, inovação e mercado de trabalho. O painel reforçou a necessidade de preparar profissionais para as novas tecnologias e transformar a IA em instrumento de desenvolvimento e aumento da produtividade brasileira.
Universalização do saneamento
A universalização do saneamento básico foi outro dos temas estruturais do seminário. O painel “Como garantir a universalização do saneamento?” reuniu representantes do governo paulista, da Sabesp, do governo federal e da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
O Secretário Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades, Márcio Leão Coelho, debateu as diretrizes para a área ao lado de Natália Resende, Secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Governo de São Paulo; João Paulo Papa, Diretor de Relações Institucionais e Governamentais da Sabesp; e Larissa Oliveira Rêgo, Diretora da ANA.
A discussão abordou os desafios de ampliar investimentos, garantir eficiência na prestação dos serviços e criar as condições necessárias para que o saneamento avance de forma sustentável em todo o País.

Segurança pública
A segurança pública foi tratada a partir de uma perspectiva de integração entre instituições e de fortalecimento da capacidade do Estado. Com o tema “Pacto pela Segurança: Integração, Gestão e Combate ao Crime”, o painel reuniu representantes da área de segurança, do setor jurídico e do governo federal.
Durante o debate, os palestrantes destacaram a necessidade urgente de conectar sistemas e sufocar financeiramente as organizações criminosas. Mario Sarrubbo, membro do Conselho Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (CNSP), destacou que “o crime sim está organizado e nós, enquanto Estado brasileiro, ainda estamos na velha política”. E complementou: “É consenso que só vamos avançar no combate da criminalidade através das finanças, seguindo o dinheiro. Para isso, nós precisamos unir bancos de dados, nós precisamos integrar”.
Complementando a questão dos dados e regulação, a advogada criminalista Marina Brecht lembrou que “a LGPD não abrange os dados de segurança pública e por isso a gente fica um pouco à mercê de como coordenar esses dados”. Por sua vez, o advogado Pierpaolo Bottini reforçou a relevância do controle financeiro: “Na questão da lavagem de dinheiro, além da aprovação da PEC, que é fundamental, é que a gente usasse o Coaf como uma agência de inteligência para recolher dados de mais setores da economia.”

O Ministro da Controladoria-Geral da União (CGU) Vinicius de Carvalho enfatizou a importância da regulação e da estruturação institucional do País: “Nós precisamos olhar para os setores da economia e ver quais são as falhas regulatórias”, pontuou, acrescentando que “a grande questão que estamos vivendo hoje é que esse Brasil não institucional está tentando se institucionalizar”.
A agenda reforçou a necessidade de uma atuação integrada do poder público, com gestão, inteligência e cooperação entre diferentes instituições como elementos fundamentais para ampliar a capacidade de resposta do Estado.
Economia: crédito, eficiência e reforma
A agenda econômica contou com discursos do Ministro da Fazenda em exercício, Dario Durigan; do Presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante; e do Chairman do BTG Pactual, André Esteves, em uma programação que reforçou a importância da sustentabilidade das contas públicas e da capacidade do Estado de promover o desenvolvimento.
Em sua fala, Aloizio Mercadante apresentou dados de gestão e defendeu uma atuação forte do Estado na indução do crescimento. “O BNDES hoje tem o segundo melhor resultado do sistema financeiro. Nós temos a menor inadimplência do mercado”, afirmou, ressaltando que “uma gestão pública pode ter resultado, pode ter transparência”.

Mercadante enfatizou que a transição ecológica exige incentivos: “Nós temos que ter subsídio para fazer a transição climática, transição energética, para descarbonizar a indústria, a agricultura e reduzir as emissões.”
Ele ainda destacou: “A divergência de fundo é a relação Estado e mercado. É um equívoco o Brasil continuar insistindo que o caminho para o desenvolvimento é o Estado mínimo. Desregular, privatizar e o Estado se retirar”. E lembrou: “Uma coisa para a gente não esquecer: nós fomos o País que cresceu durante 30 anos. Precisamos voltar a isso. Nós precisamos olhar com profundidade o papel do banco público.”
O presidente do BNDES também abordou a conduta no serviço público, o papel das instituições e a transformação tecnológica: “Quem quer ganhar dinheiro vai para o mercado, não para ser servidor público”, afirmou. Sobre o cenário atual do Judiciário brasileiro, completou: “Nós vamos superar […] a democracia vai sair melhor, acho que o Judiciário tem que se reformar, tem que se repensar.