• ago | 2026
  • Redação

Diversidade é método

Diversidade não é pauta, é método

A presença feminina em cargos de liderança, ao reverter modelos tradicionais, expande a competência institucional 

Por Inês Coimbra

Há uma cena que se repete nas organizações que sobreviveram às últimas crises: uma sala com perspectivas que discordam, processos que foram questionados, líderes que preferiram fazer as perguntas certas a dar as respostas rápidas. Quase sempre, essa sala inclui pessoas que, por muito tempo, não estavam nela.

O debate sobre mulheres em cargos de liderança passou décadas preso ao vocabulário da representatividade. Equidade. Justiça. Direito ao acesso. Esses pilares continuam válidos. Mas a pauta cresceu — e seria ingênuo não reconhecê-lo. A presença feminina em posições de comando deixou de ser apenas uma questão moral. Tornou-se uma questão de competência institucional.

A complexidade do mundo atual não comporta mais o líder que centraliza respostas. Exige quem saiba formular as perguntas certas. Escuta ativa, colaboração, empatia, mediação — rebaixadas durante décadas à categoria de soft skills, como se fossem ornamentos do poder real — são, na prática, as ferramentas mais robustas para enfrentar crises e promover transformações duradouras. Não são habilidades femininas. São habilidades estratégicas. A diferença importa.

A inovação não floresce em ambientes homogêneos. Ela exige o atrito produtivo de perspectivas distintas. Diversidade não é uma concessão ética. Não é pauta identitária. É uma tecnologia aplicada à inteligência coletiva.

Há, contudo, um paradoxo que merece ser nomeado.

Durante muito tempo, mulheres que chegaram ao topo sentiram — às vezes sem perceber — a necessidade de imitar o modelo de liderança que encontraram. Autoridade pela distância. Força pela dureza. Decisão sem escuta. Uma espécie de mimetismo de sobrevivência.

A nova geração está rompendo esse ciclo. Não porque seja mais tolerante. Porque entendeu que autenticidade é poder, não sua negação. É possível ser firme sem abrir mão da empatia. É possível ser decisiva enquanto se constrói confiança.

Liderar não é reproduzir o passado. É expandir o que entendemos por poder. Adam Grant propõe que a inteligência, em um mundo de mudanças aceleradas, não é apenas a capacidade de aprender — é, sobretudo, a habilidade de repensar e desaprender. A liderança feminina, ao questionar estruturas tradicionais, coloca essa máxima em prática todos os dias. Transforma instituições fechadas em seus próprios gabinetes em organismos vivos, permeáveis ao cidadão e aos seus problemas reais.

A medida mais honesta de uma liderança não é o cargo que ela ocupou. É o tipo de instituição que ela deixou para trás — uma que não consegue mais operar da forma antiga porque aprendeu a fazer perguntas melhores. Legado não se conta em posições. Se conta em culturas transformadas.

Seja no serviço público ou no setor privado, o desafio é o mesmo: não basta ocupar cadeiras. É preciso ocupá-las com a consciência de que a diversidade é a chave da inteligência institucional.

Quando o comando reflete a sociedade que serve — em toda a sua pluralidade —, a gestão ganha propósito e a entrega ganha alma. E a instituição para de fingir que já sabe tudo.

A diversidade não é o que as instituições devem às mulheres. É o que as instituições devem a si mesmas. Reconhecer isso não é progresso moral. É lucidez.

Coimbra é Procuradora-Geral do Estado de São Paulo.

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