• ago | 2026
  • Redação

O gosto do eleitor

O que mobiliza o eleitor em 2026?

Violência, corrupção e economia ganham relevância; polarização pode enfraquecer o impacto desses assuntos nas urnas

*Por Marcel Frota

Conhecer o que pensa o eleitor e aquilo que pode fazê-lo mudar de ideia é informação estratégica para qualquer comitê de campanha. Porém, desejos, anseios e aspirações muitas vezes são sentimentos bastante ligados a uma determinada época ou a um momento pessoal. Por isso, eleições podem ter dinâmicas muito particulares.

Em 2026, temas como segurança pública e corrupção ganham relevo. A economia sempre exerce influência em eleições e terá seu espaço neste ano. Por outro lado, a polarização cristalizada é parte do contexto e há quem acredite que ela pode gerar uma certa inércia em parte significativa do eleitorado, já comprometido com preferências ideológicas.

Em ano de pleito, milhões de reais são gastos em busca de respostas sobre o eleitor. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que em 2026 já foram gastos R$ 60,3 milhões em pesquisas eleitorais. Na última eleição presidencial, em 2022, os gastos com pesquisa atingiram R$ 142,8 milhões. O que o eleitor quer, afinal, é algo complexo e, por vezes, bastante pessoal. O cientista político Leandro Consentino, professor do Insper, admite que não é uma pergunta simples. “O que o eleitor quer é a qualidade de vida dele assegurada. Acho que depende muito do que é, para cada um, qualidade de vida”, afirma. “O eleitor quer um candidato que dê a ele a confiança de que pode subir na vida”, diz Christopher Garman, Diretor-Executivo para as Américas do Eurasia Group, que admite que isso pode variar bastante. “Ter ascensão de oportunidades, seja de renda, seja de qualidade de vida”, acrescenta ele.

Para muito além do resultado da disputa entre os candidatos, obter pistas a respeito do que, de fato, faz diferença na cabeça dos eleitores requer um olhar mais apurado para outras evidências. Por isso, pode ser menos importante olhar a intenção de voto, mas sim identificar indicadores sobre como o eleitor está pensando em sua própria vida.

O diretor-executivo para as Américas do Eurasia Group acrescenta que é fundamental compreender se a eleição se desenha como um processo com foco na continuidade ou em uma demanda por mudança; se o eleitor olha para o que passou ou para o que espera chegar. Porém, na visão dele, 2026 tem suas próprias complexidades. “O desafio é que nós estamos com modelos apontando para direções opostas”, afirma. Segundo o analista, Lula tem hoje uma taxa de aprovação que apontaria, em condições normais, para uma probabilidade de vitória de 70%, com base na análise de dados eleitorais globais. “Se você tem 45% da população aprovando o governante, é um sinal de que não é uma eleição clara de mudança”, diz ele.

Apesar disso, uma análise de dados qualitativos obtidos pela Eurasia mostra um eleitor insatisfeito. “É uma eleição onde o eleitor está pessimista com o futuro. Então, a despeito do aumento da renda e do baixo desemprego, você tem dados qualitativos sugerindo que o leitor se enxerga trabalhando muito, mas não avançando na vida. Então, é um pessimismo latente maior do que os ciclos anteriores. É uma eleição onde o eleitor atribui à corrupção ou à (falta de) segurança essa sensação de estagnação”, avalia Garman.

Consentino pondera que a segurança pública deve ser um tema relevante para o debate eleitoral deste ano. Ele considera que a economia também terá um espaço importante, mas dividindo as atenções do eleitorado com um assunto que o professor do Insper enxerga “correndo por fora”. “O tema que eu digo que corre por fora é a questão da corrupção. Temos visto agora um novo escândalo, a questão do Banco Master. É algo que mobiliza diferentes lados [e pode atingir] tanto o governo quanto a oposição. Então esse tema da corrupção pode reaparecer novamente, não sei se com a mesma força que em 2018, imagino que não, mas dependerá muito do desdobramento desse caso”, diz o cientista político.

Economia

Indicadores macroeconômicos permeiam os noticiários com frequência e alguns deles são percebidos — de forma negativa ou positiva — diretamente no cotidiano das pessoas, como a inflação e o desemprego. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), em maio, ficou em 0,58% e o acumulado de 12 meses foi de 4,72%. A taxa de desemprego no Brasil, de acordo com o instituto, foi de 5,8% no trimestre encerrado em abril de 2026. Ainda que no processo eleitoral de 2026 temas como segurança pública e corrupção ganhem protagonismo, o espaço desses indicadores na tomada de decisão dos brasileiros é relevante.

Garman afirma que os achados das sondagens mostram alguma contradição: “A expectativa futura sobre a economia não está boa. Temos 60% da população que acha que o País está na direção errada. Você tem 48% das pessoas que acreditam que a economia piorou nesse último ano, quando a renda subiu 19%, e o desemprego está 5%”. O aparente paradoxo tem na inflação uma possível explicação. “A classe média percebe um ambiente onde preços estão pegando. Quando você analisa grupos focais, encontra muito a ideia de que ‘eu ralo e ralo e não consigo avançar na vida’. Então, acho que a agenda ‘custos de vida’ é um tema sensível”, afirma o diretor-executivo do Eurasia Group.

A alta generalizada dos preços é vista como algo com potencial bastante abrangente na população e no eleitorado. “A inflação continua a afetar todos de maneira transversal. Então, obviamente que quem ganha menos sente mais, e essa inflação é muito forte, sobretudo para a baixa renda, quando a gente fala de inflação de alimentos”, diz Consentino. Ele aponta que o problema da inflação gera consequências que reverberam por toda a economia a partir do instrumental que busca contê-la, como a taxa básica de juros, e seus efeitos colaterais, como a queda do investimento e possíveis impactos no emprego. “Obviamente que o problema da inflação não vem sozinho”, afirma.

Esse cenário econômico é afetado pelos contextos internacionais, desde desconfianças no mercado financeiro internacional acerca de uma possível bolha nos ativos ligados ao complexo industrial da inteligência artificial, cujo estouro impactaria bolsas pelo mundo todo, até a geopolítica global no contexto de guerras, disputas comerciais e a imprevisibilidade sobre seus desfechos. 

Inércia

O potencial de alguns temas em ganhar relevância no processo decisório do eleitor pode esbarrar, entretanto, na capacidade que a polarização tem em enrijecer o eleitorado. O CEO do instituto de pesquisa AtlasIntel, Andrei Roman, avalia que as pessoas ficam reféns dos grupos políticos com os quais se identificam. “Existe uma fatia muito reduzida de eleitorado que não tem nenhum tipo de afinidade ideológica ou realmente tem um posicionamento centrista independente desses dois polos”, diz.

Roman cita dados de levantamento realizado pela AtlasIntel que mostram que 85% do eleitorado diz já ter escolhido um candidato. Dentro deste segmento, mais de 65% afirma que quase nenhum elemento poderia fazê-los mudar de opinião ou de opção em relação a este candidato. “Isso explica porque, por exemplo, polêmicas recentes envolvendo Lula e [Flávio] Bolsonaro não vêm alterando muito o nível de apoio de cada um. Diria que hoje há uma tendência de inércia, de estabilidade, por causa do apoio específico a esses candidatos dentro dos dois polos”, avalia Roman.

O CEO da Atlas Intel acredita que mesmo a pauta econômica sai enfraquecida dentro de um contexto tão polarizado. “Isso afeta mais o eleitor menos politizado. Um que se importe menos com essa questão dos dois polos”, diz Roman. “Talvez afete uma espécie de swing voter que já votou tanto no Lula quanto no Bolsonaro. Então, tem essa independência maior na hora do voto. Nesse caso, esses eleitores que já trocaram de lado antes poderiam ser mais impactados por um clima econômico melhor ou pior, dependendo de como esse clima for evoluir”, acrescenta ele. 

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