“O governo precisa entender no detalhe a dor dos investidores”

Thomaz Srougi, fundador e chairman do dr. Consulta, defende a necessidade de uma reforma no sistema tributário brasileiro, mas demonstra preocupação com pontos do texto atual do PL 2337 que podem afastar o investidor estrangeiro do Brasil. 

Em entrevista à Esfera, ele destaca a importância do capital externo na construção de empresas fortes dentro do país, capazes de pagar mais impostos e capitalizar também o Estado. Hoje, Srougi vê o risco de uma espiral negativa, que inclui, ainda, a dificuldade do setor privado em colaborar com a solução de problemas da sociedade brasileira que, hoje, estão predominantemente nas mãos do setor público, como a saúde.  

Qual efeito da reforma tributária para o segmento?

O texto da reforma tributária apresenta um risco muito grande para a indústria de startup, porque tem vários mecanismos que estão no texto que oneram o investidor estrangeiro, especialmente as estruturas associadas a investimentos. Então, sobre a taxação do paper money em offshore: todas as empresas de tecnologia brasileiras, hoje, são constituídas legalmente lá fora, em offshores, e essa história de taxar valorização contábil é muito ruim. Também é muito ruim não trazer um tratamento igual, ou isonômico, para todos os tipos de investidor — minoritário, majoritário, nacional, estrangeiro. Isso vai afugentar os investidores e criar insegurança jurídica. O Brasil já é um país arriscado, na visão do investidor; investir em startup é uma decisão arriscada, pela própria natureza dos negócios de startups, do risco embutido em você criar uma ideia do zero e fazer ela prosperar. Se, acima de tudo isso, a gente trouxer um elemento de risco adicional, então não faz sentido. Vai afastar o investidor.

Olha para a Colômbia, por exemplo. Lá eles fazem um summit. Durante uma semana, o governo colombiano, incluindo o presidente, as universidades, os empreendedores, os empresários e os investidores se reúnem, e o governo organiza encontros e apresentações de empresas e empreendedores para os investidores. Isso, sim, é exemplo de um governo que se preocupa e entende a importância do investidor estrangeiro, trata o investidor estrangeiro como cliente e faz de tudo para que ele venha e invista. Sabe que não adianta ter empreendedor, não adianta ter oportunidade, se não tiver dinheiro.

O governo não entendeu ainda que, para que a gente consiga realmente sair da zona de rebaixamento, e ser um país rico, igualitário, que promove justiça social e bem-estar social, a gente precisa de empreendedores, oportunidades e investimento. Não adianta ter um só desses elementos, precisa de todos, e um ecossistema com regras estáveis. E hoje o Brasil não está fazendo isso.

Qual a importância do capital estrangeiro para as startups brasileiras?

A indústria de startups no Brasil tem um potencial gigante. O investimento anual no País já é maior que R$ 20 bilhões e acho que, se a gente continuar nesse caminho, pode aumentar 10 vezes nos próximos anos. O mercado é gigante e os empreendedores são excelentes. Investidores estrangeiros já perceberam isso e as startups que hoje estão fazendo a diferença na vida das pessoas são financiadas com capital estrangeiro. Se o capital estrangeiro não financiasse a gente, as pessoas não teriam iFood, Rappi, dr. Consulta, Nubank e por aí vai. Isso mostra como é grande o potencial do empreendedor brasileiro na geração de bem-estar, de emprego, principalmente, e na geração do pagamento de impostos, em trazer para a sociedade uma vida melhor.

Como está o setor, atualmente?

Estamos numa toada muito interessante, com um boom de startups. Isso é muito bom, porque é empreendedorismo, que gera emprego, gera empresas grandes e fortes, que não só oferecem produtos e serviços muito melhores, facilitam a vida das pessoas, mas também pagam muitos impostos. Países com empresas grandes e fortes, que pagam muitos impostos, têm governos fortes e bem capitalizados, e governos fortes conseguem promover justiça social e cuidar de distribuição de renda, promover o bem-estar social, serviço público de qualidade, regulação correta. 

O governo deveria ter uma mentalidade user first. Quem é empreendedor entende muito bem isso: a gente cria as empresas e os serviços para quem tem necessidade. A gente tem um mercado-alvo, que é uma pessoa que a gente quer ajudar, e, antes de a gente criar alguma coisa, a gente se aproxima para tenta entender, hoje, quais são as necessidades dessa pessoa, funcionais e emocionais. A gente desenvolve com essa pessoa, com esse grupo de pessoas, em mente. É isso que faz com que a gente consiga ser bem-sucedido. Isso deveria funcionar para o governo. O governo precisa entender que o que gera riqueza não é o governo, mas as empresas, que têm um papel fundamental no desenvolvimento social. São agentes importantes de mudança social, de resolução de grandes problemas sociais, como o dr. Consulta. E o que faz empresas como dr. Consulta nascerem são investidores estrangeiros. O dr. Consulta só existe por causa dos investidores estrangeiros que confiaram no time, que confiaram na proposta, na visão, que entenderam o tamanho do impacto que a gente poderia gerar no Brasil, num setor tão importante como a saúde.

Quais são os possíveis efeitos, caso o texto passe como está?

Se esse texto passar, o Brasil vai deixar de exportar tecnologia, porque todos os investidores vão embora, os cérebros do Brasil vão embora também, vai ter uma fuga de talento, os engenheiros, cientistas de dados. O Brasil compete com outros 180 países para atrair capital estrangeiro e investimento direto. Se o Brasil não trata bem os investidores, eles simplesmente vão embora, assim como os empreendedores, que vão desenvolver suas ideias em outros lugares. Justo agora que a gente estava indo tão bem, na direção certa. A reforma tributária é necessária, mas o texto atual não é suficiente. A gente precisa de empreendedores, oportunidades e investimento. Não adianta ter um só desses elementos, precisamos de todos.

Como melhorar a proposta?

O governo precisa entender de fato e no detalhe quais são as dores dos investidores. Todos os empreendedores e empresários que conheço não são contra pagar imposto. Muito pelo contrário: adorariam pagar mais impostos se o dinheiro chegasse à população de forma justa, através de atendimento médico, educação, infraestrutura, segurança e saneamento. Só que o dinheiro não chega e, da forma como está a proposta, você pode até gerar de imediato um aumento na arrecadação, mas logo na sequência, no médio e longo prazo, a arrecadação diminui, porque os investidores vão embora. Falta o governo se aproximar e entender um pouco mais, porque tenho certeza de que o governo entende a importância do investimento estrangeiro. 

Como o dr. Consulta se propõe como a ampliar o atendimento de saúde à população?

De um lado, o governo se propõe a atender todas as pessoas, não tem dinheiro suficiente para fazer isso, investe muito pouco no setor da saúde, a estrutura é precária. De outro, 80% da população precisam de atendimento público, porque não têm recursos suficientes para comprar um plano de saúde privado. Os planos estão cada vez mais exclusivos, porque o aumento de preço anual tem sido maior do que o crescimento dos salários. Muita gente que conseguia comprar um plano há cinco anos, já não consegue mais. Além disso, temos que levar em consideração o que aconteceu no Brasil nos últimos 15 anos: o poder de compra da população hoje, em 2021, regrediu e é o mesmo que era em 2005. O Brasil voltou 15 anos atrás, então a saúde se tornou um bem muito mais escasso do que era. Daí a importância de iniciativas como o dr. Consulta.

Qual a lógica do serviço oferecido pelo dr. Consulta?

Quanto mais a gente demora para tratar uma pessoa, mais caro fica. A cada real que a gente investe na atenção primária e secundária, como o que faz o dr. Consulta, a gente consegue gerar R$ 13 de economia para o sistema de saúde. Tem a ver com prevenção, é por isso que a gente existe.

A pergunta pode parecer óbvia: “Poxa, por que que a gente não pode ajudar o setor público na área da saúde?”. Porque existe uma dicotomia entre o público e o privado, muito ligada ao idealismo. É uma pena, porque as empresas estão super estruturadas para produzir, com inovação, muita agilidade aplicada ao setor público. O governo não precisaria, por exemplo, construir clínicas. Poderia aproveitar o dinheiro que a iniciativa privada já investiu em estrutura e pagar um voucher para os cidadãos, para que pudessem escolher como usar. É um mecanismo de livre escolha, de seleção natural, em que os melhores vão perseverar, enquanto você desonera o governo. Os melhores vão crescer e vão pagar mais impostos, então o governo não só ganharia mais, mas também economizaria mais, porque não teria que construir clínicas e hospitais.

Por que isso não acontece?

A gente não tem leis que incentivem isso. Existe uma certa resistência dentro do setor público para trabalhar com uma empresa do setor privado. Existe um pouco de insegurança jurídica do lado das empresas privadas. Existe um componente político e esses assuntos no Brasil foram todos politizados: educação, saúde, até vacina virou um instrumento de campanha política. É uma dinâmica muito complexa e às vezes perversa, que dificulta aproximar empresas e governo. Às vezes, é mais fácil as empresas se preocuparem só em trabalhar em direto com a população e não trabalhar com o governo, infelizmente, porque é menos arriscado. E quem paga por isso são as pessoas. Não importa se o médico vem do setor público ou do setor privado, o que importa é que as pessoas estão doentes, aflitas e não sabem o que fazer.

Como foi a pandemia para a empresa?

Acho que o dr. Consulta teve um papel fundamental durante a pandemia. A gente tem um nível de desemprego altíssimo, as pessoas estão inseridas num contexto muito perverso, com doença mental, falta de acesso aumentando, muita aflição. A gente conseguiu se colocar ao lado dessas pessoas e trazer todos os recursos de que elas precisavam para passar por esse período de forma mais tranquila, utilizando a telemedicina, as clínicas,  fazendo atendimento na casa das pessoas. A gente se sente muito orgulhoso com a quantidade de pessoas que a gente atendeu. Hoje, o dr. Consulta tem dois milhões e meio de pacientes e está atendendo 300 mil pessoas por mês, com altíssima satisfação. A gente tenta ir além de entender a pessoa, não como um paciente, mas alguém inserido num contexto muito maior de Brasil, com problemas sociais e problemas médicos.

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