A importância da paz como pilar do crescimento econômico foi eixo das atenções de Davos, em meio à nostalgia da neve e do vento gelado.

A geopolítica marcou o Fórum Econômico Mundial. Os debates e muitas conversas deram-me a certeza de que os blocos econômicos terão de se reorganizar e evitar a fragmentação. Nesse processo, para o Brasil haverá riscos e oportunidades. O gatilho dessa disrupção é a Rússia. O “R” dos Brics caminha para o isolamento econômico.

A invasão da Ucrânia travou a oferta de alimentos ao mundo. Como o consumo permanece igual, ou é até crescente, será inevitável o rearranjo na cadeia de fornecedores. Com vantagens competitivas reconhecidas, o agronegócio brasileiro pode dar mais um salto comercial e de produtividade.

Apreendi em Davos que, nessa reorganização dos blocos, sobressai como conceito dominante a integração por proximidade. O campo do Brasil é a América Latina.

As longas cadeias comerciais surgidas com a globalização serão redesenhadas. Outra conclusão em Davos é que a oferta de energia está estrangulada com o fechamento das conexões do gás da Rússia para a Europa. Isso exige reflexão. Apesar dos discursos, anúncios e alguma efetividade na redução da dependência dos combustíveis fósseis, a guerra mostrou a realidade: a base funcional da sociedade ainda depende da extração do petróleo. E aqui, de novo, o Brasil tem possibilidades. Por seu território e clima, capacidade industrial e tecnológica, viabiliza todas as fontes alternativas de energia do planeta, entre elas, hidrelétricas, eólicas, solares e, também, nucleares. Mais de 70% da produção nacional vem de fontes renováveis, a energia limpa. Um exemplo é o etanol. A conclusão é que o Brasil tem um razoável índice de segurança energética.

Lamento que os temas que deram tração ao Fórum antes da pandemia, como globalização, inovação, inclusão, igualdade de gênero e novas relações de trabalho, não tiveram a mesma atenção, apesar de ocuparem vários painéis. Diferentes mesas trataram do novo rol de habilidades para a adaptação do ser humano à inovação tecnológica. Esta já é uma tendência permanente, não mais transitória.

Para o Brasil, a mensagem é a de que o mundo mudou e traz novos desafios. É tempo de transformações, e cabe a nós encontrarmos o nosso lugar. Podemos nos destacar ao adotar uma matriz energética renovável, transitar da exportação de commodities para bens de valor agregado e investir seriamente na inclusão sustentável de milhões de brasileiros no consumo de bens e serviços, ou seja, ampliar o mercado interno.

Artigo publicado originalmente em "O Estado de S. Paulo"

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