Brasileiros estão adotando os pagamentos digitais mais rápido do que qualquer outro país

Os pagamentos digitais estão impulsionando uma mudança profunda no setor bancário brasileiro. Nos últimos 10 anos, uma revolução silenciosa no Brasil levou ao aumento da concorrência nesse setor, a uma maior inclusão financeira e tarifas bancárias mais baixas. A explosão dos pagamentos digitais no Brasil criou um ecossistema financeiro inovador, que funciona para pessoas comuns. Esse avanço é resultado da combinação de uma reformulação no marco regulatório de pagamentos, uso intensivo de tecnologia, empreendedorismo e foco na criação de produtos que atendam às necessidades dos clientes brasileiros.

Desde o início da pandemia de Covid-19, cerca de 16 milhões de pessoas foram incluídas no sistema financeiro brasileiro. O aumento da migração para serviços online durante esse período significa que 85% dos brasileiros agora têm acesso a serviços financeiros. Isso representa um dos maiores aumentos da população bancarizada em décadas. Apesar dessa melhoria, ainda existem barreiras para a adoção do pagamento digital — mas algumas das promissoras empresas FinTech do Brasil estão procurando a solução em colaboração com outros players.

O Nubank, fundado em São Paulo em 2013, é hoje uma das maiores plataformas de banco digital do mundo, oferecendo produtos financeiros para mais de 53 milhões de clientes. Dados recentes mostram que o Nubank abriu o acesso ao sistema financeiro para 5,6 milhões de pessoas que nunca tiveram acesso a serviços bancários. Mas a inclusão financeira não pode depender apenas do avanço tecnológico– é preciso também esforço do governo.

As políticas ou regulamentações governamentais podem, de fato, criar barreiras à entrada de provedores de pagamento ou novos players que tentam inovar no mercado. Requisitos onerosos de licenciamento, de capital, processamento doméstico e restrições de compartilhamento de dados são adotados por muitos países em um esforço para aumentar a segurança, controlar custos e por questões de privacidade. Mas tudo isso pode resultar na criação de barreiras de acesso ao mercado. Alguns países, no entanto, conseguiram evitar isso. O Banco Central tem feito um excelente trabalho incentivando a entrada de novas instituições por meio da regulação proporcional, por exemplo.

A plataforma Moldando o Futuro do Comércio e Investimento do Fórum Econômico Mundial firmou parceria com o BID Lab, o laboratório de inovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento, para lançar a iniciativa Payments to Advance Growth for All (PAGA), que visa aumentar o número de pessoas com acesso aos pagamentos digitais na América Latina e no Caribe.

Esta iniciativa reúne stakeholders dos setores público e privado para promover recomendações práticas para uma maior adoção de pagamentos digitais na região.

As recomendações da PAGA listadas a seguir facilitarão o acesso ao sistema financeiro para os desprivilegiados, protegendo seus direitos e sua privacidade e garantindo que o setor permaneça competitivo.

– Construir boas práticas regulatórias para reduzir as barreiras de mercado e promover a inovação: Incentivar a interoperabilidade, adotar padrões globais da indústria e promover condições equitativas em pagamentos digitais e serviços financeiros são as bases de um próspero ecossistema de pagamentos digitais.

– Incentivar a colaboração do setor público-privado: As inovações em pagamentos estão em ritmo acelerado. Para garantir que elas sejam inclusivas, sustentáveis e seguras, os setores público e privado devem trabalhar juntos para fornecer produtos e serviços que atendam às necessidades individuais e empresariais.

– Explore os acordos comerciais digitais para garantir pagamentos digitais cross-border seguros: Os reguladores podem considerar codificar seus compromissos segundo padrões internacionais em acordos comerciais que encorajem a adoção e a promoção de padrões internacionais para permitir a interoperabilidade técnica e de rede.

– Facilitar novas tecnologias e inovação: As inovações tecnológicas estão criando novas oportunidades de pagamento e comércio digital e abordando barreiras importantes. Os governos podem facilitar a inovação com regulamentos e políticas flexíveis que promovam condições equitativas para todos os players.

A HISTÓRIA DE SUCESSO BRASILEIRA

No Brasil, o cenário regulatório pró-inovação permitiu aos bancos digitais desenvolverem tecnologias que têm sido fundamentais para o crescimento da inclusão financeira observado na pandemia. No entanto, não é o caso para todos os países da América Latina e Caribe, especialmente para micro, pequenas e médias empresas (MPMEs).

Um estudo descobriu que os processos de onboarding, de integração ao novo sistema, são um dos principais obstáculos para a inclusão de 80% das MPMEs na economia formal e a razão pela qual permanecem informais. Outro catalisador da inclusão financeira por meio de pagamentos digitais no Brasil foi a introdução do Pix, um sistema de pagamentos em tempo real lançado em 2020 pelo Banco Central do Brasil.

O Pix permitiu que mais de 40 milhões de pessoas fizessem sua primeira transferência bancária. Entre novembro de 2020 e março de 2022, o número de usuários do Pix disparou de 41 milhões para mais de 124 milhões, e um relatório recente do Bank for International Settlements (BIS) descobriu que o Pix teve a curva de adoção mais rápida entre todos os sistemas de pagamento em tempo real pesquisados no mundo. O sistema agora é amplamente utilizado para custear programas de assistência social como o CadÚnico e o Bolsa Família. O Pix mostrou como a criação de infraestrutura de pagamentos em tempo real pode ser uma ferramenta importante para os Bancos Centrais promoverem a inclusão financeira na região.

Apesar dos desafios enfrentados na região, países da América Latina e do Caribe  têm visto um crescimento incrível na digitalização de pagamentos e nos benefícios que a acompanham. As pessoas e as MPMEs foram capacitadas através do fornecimento de serviços financeiros acessíveis.

Para desenvolver ainda mais os pagamentos digitais, os governos e a indústria devem adotar novas tecnologias para ajudar a modernizar os pagamentos. Isso facilitaria a inovação no ecossistema de pagamentos, permitiria que indivíduos e empresas aproveitassem as novas inovações e facilitaria o investimento de instituições intergovernamentais e multilaterais no desenvolvimento de FinTechs e de outras tecnologias – todas essenciais para a inclusão financeira em um mundo digitalizado.

David Vélez é fundador e CEO do Nubank

Texto publicado originalmente em inglês no site do Fórum Econômico Mundial

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