Tarifas, inflação e a nova geopolítica da produção

A ofensiva tarifária dos EUA acelera a fragmentação global e redefine o papel dos emergentes, inclusive o Brasil, nas cadeias produtivas

Por Mariam Dayoub

How did you go bankrupt? Two ways. Gradually, then suddenly.” A frase de Ernest Hemingway descreve com precisão desconfortável a economia de 2025. A fragmentação comercial avançou lentamente por anos, mas a nova ofensiva tarifária dos Estados Unidos empurrou o sistema global para uma reconfiguração irreversível. O que parecia um movimento gradual tornou-se a força dominante que está redefinindo o comércio e a geoeconomia.

Instituições internacionais convergem em um diagnóstico: as cadeias produtivas estão sendo redesenhadas de forma estrutural. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que o comércio global pode cair até 3% se as novas barreiras se consolidarem, enquanto o Banco Central Europeu argumenta que a lógica dominante deixou de ser a eficiência para se tornar redundância estratégica. Empresas passam a operar com múltiplos fornecedores, estoques maiores e produção mais distribuída geograficamente, sacrificando parte dos ganhos de escala que definiram a globalização desde os anos 1990. Esse rearranjo eleva custos marginais e intensifica a pressão por investimentos em setores considerados estratégicos.

O quadro se torna mais complexo quando se observa a China. Apesar da escalada protecionista americana, até novembro de 2025, o país registrou um superávit comercial histórico de 1 trilhão de dólares. O fenômeno decorre de preços ao produtor persistentemente deflacionários, exportações recordes de bens industriais e capacidade instalada em expansão mesmo com a fragilidade doméstica. Isso mantém barata a oferta global de manufaturas, mesmo enquanto países tentam reduzir dependências estratégicas. É um paradoxo: tarifas sobem, mas o “choque chinês” permanece vivo — apenas assumiu uma nova forma.

Ao mesmo tempo, a China avança em sua própria reconfiguração produtiva. As recomendações no 15º Plano Quinquenal (2026-2030) deixam claro que o país pretende subir a escada tecnológica: semicondutores, energias limpas, inteligência artificial (IA), biotecnologia e manufatura avançada ocupam o centro da estratégia. O objetivo é reduzir vulnerabilidades externas e disputar a liderança em setores de ponta. O contraste com a política americana, focada em restringir dependências e proteger cadeias críticas, evidencia uma transição para uma economia global organizada por blocos tecnológicos, não mais por vantagens comparativas tradicionais.

Os efeitos dessa reorganização já são visíveis nas economias emergentes. O México se tornou o epicentro do nearshoring e viu o investimento estrangeiro direto subir quase 30% em dois anos. A Índia ampliou em 70% suas exportações de eletrônicos desde 2021 e se tornou peça central da diversificação produtiva na Ásia. O Vietnã, integrado às cadeias chinesas, exporta hoje mais manufaturas que o Brasil. A geografia industrial está mudando diante dos nossos olhos e não voltará ao formato anterior.

O Brasil entra nesse cenário com vantagens evidentes, mas limitações persistentes. De um lado, a demanda global por alimentos, energia e minerais reforça a posição do País como fornecedor confiável para diversas regiões. De outro, seguimos distantes das cadeias de maior valor agregado: participamos com apenas 1,4% das exportações globais de manufaturas, mantemos tarifas médias elevadas e enfrentamos gargalos logísticos que comprimem margens e reduzem a competitividade. A dependência de insumos importados aumenta a vulnerabilidade a choques geopolíticos, mesmo quando a desinflação chinesa ajuda a conter os preços domésticos.

Ainda assim, há oportunidades concretas. A transição energética e a expansão da IA elevam a demanda por minerais críticos; o reposicionamento geopolítico abre espaço para fertilizantes, hidrogênio e etapas intermediárias de semicondutores; e a busca global por fornecedores “neutros” pode favorecer o Brasil, desde que haja uma agenda consistente de competitividade, integração comercial e estabilidade regulatória. O desafio não é apenas participar das cadeias, mas capturar funções estratégicas dentro delas.

Hemingway tinha razão: rupturas parecem súbitas apenas para quem ignorou os sinais. A fragmentação comercial é o novo normal. Para o Brasil, o dilema é simples: ou disputa espaço nas novas cadeias globais ou repete o passado e assiste, mais uma vez, à reorganização mundial avançar sem que o País converta potencial em protagonismo.

*Mariam é economista-sênior na Galapagos Capital

x

Utilizamos cookies e outras tecnologias para lhe oferecer uma experiência de navegação melhor, analisar o tráfego do site e personalizar o conteúdo, de acordo com a nossa Política de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.