Robótica redefine produtividade

Especialistas explicam que tecnologia, puxada especialmente pela Ásia, tem promovido uma transformação estrutural no mundo,

Por Françoise Terzian

A demanda global por robôs industriais mais do que dobrou em 10 anos e consolida a automação como um dos principais vetores de competitividade econômica no mundo. Em 2024, foram instalados 542 mil robôs em fábricas pelo globo — segundo o World Robotics 2025, da Federação Internacional de Robótica (IFR) —, o segundo maior volume anual da história, apenas 2% abaixo do recorde. O estoque global de robôs em operação chegou a 4,66 milhões, crescimento de 9% em relação ao ano anterior, sinalizando que a automação deixou de ser um investimento pontual para se tornar infraestrutura produtiva.

A liderança disparada vem da Ásia e respondeu por 74% das novas instalações em 2024, enquanto a Europa ficou com 16%, e as Américas com 9%. A China, sozinha, concentrou 54% do mercado mundial, com 295 mil robôs instalados, o maior número já registrado por um país. Pela primeira vez fabricantes chineses superaram fornecedores estrangeiros em seu próprio mercado, atingindo 57% de participação doméstica. O país ultrapassou a marca de 2 milhões de robôs em operação e mantém potencial de crescimento médio anual de 10% até 2028, impulsionado pela modernização contínua da manufatura.

O segundo maior mercado é o Japão, seguido pela Coreia do Sul e pela Índia, que desponta como um mercado em rápida expansão, chefiado especialmente pela indústria automotiva.

Na Europa, apesar de uma queda de 8% em 2024, foram instalados 85 mil robôs, o segundo maior resultado histórico. A Alemanha manteve a liderança regional, com cerca de 23 mil robôs, enquanto Itália, Espanha e França apresentaram retrações relevantes. Nas Américas, as instalações somaram 50,1 mil robôs, com os Estados Unidos respondendo por 68% do total regional, ainda fortemente dependente de fornecedores estrangeiros.

Transformação estrutural

Por trás desse movimento acontece o que especialistas chamam de transformação estrutural. De acordo com a empresa de pesquisas Mordor Intelligence, o mercado global de robótica atingiu 73,6 bilhões de dólares em 2025 e deve chegar a 185,3 bilhões de dólares até 2030, com crescimento anual de 20,28%. As razões para esse salto são a escassez de mão de obra nas economias avançadas, a queda sistemática dos custos de hardware, o avanço das plataformas de programação de baixo código e as políticas industriais voltadas à relocalização da produção. 

Todos esses indicadores estão redefinindo o papel dos robôs, tratados cada vez mais como ativos estratégicos. Programas governamentais no G7, como a Lei dos Chips — voltada à promoção e ao financiamento da indústria de semicondutores e chips eletrônicos nos Estados Unidos — e os fundos europeus para automação digital, criam demanda previsível e anticíclica, ou seja, compensações para contrariar o ciclo natural da economia.

Para Hugo Tadeu, professor e diretor do Centro de Pesquisa em Inovação e Inteligência Artificial da Fundação Dom Cabral, a robótica altera o conceito tradicional de produtividade ao ir além da simples substituição de mão de obra. 

“O impacto ocorre na redução de horas trabalhadas, na diminuição de desperdícios e na melhoria do valor entregue ao cliente. Mas esses ganhos exigem investimentos em bases de dados, sistemas de backoffice tecnológico e mão de obra especializada, sempre comparando o benefício econômico ao custo de capital”, afirma. Segundo ele, não há “mágica” na adoção de inteligência artificial (IA) e robótica: a produtividade precisa ser comprovada por métricas clássicas de eficiência operacional.

A integração entre robôs físicos e IA acelera o ritmo das operações, mas exige governança. Tadeu destaca que o legado dessas tecnologias precisa estar associado à redução efetiva de custos e despesas, sob a ótica da alta liderança e dos conselhos de administração. “Sem um plano estratégico de longo prazo e programas estruturados de treinamento, o risco de frustração é alto”, avalia. Para o professor, o Brasil corre o risco de ampliar o gap de produtividade se não avançar na formação da metodologia Steam — em inglês: Science, Technology, Engineering, Arts and Math (Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) — e na qualificação prática para operar dados, sistemas e robôs.

Na mesma linha, o professor convidado da Fundação Getulio Vargas (FGV) Álvaro Camargo ressalta que robôs elevam produtividade não apenas pela velocidade, mas pela repetição sem erro, eliminando retrabalho e elevando a qualidade. “Os robôs geram dados continuamente, que podem ser usados para melhorar qualquer processo”, afirma. Ele pondera, contudo, que nem sempre o custo total de produção com robôs é inferior ao trabalho humano, especialmente fora de grandes plantas industriais, considerando manutenção, seguros e paradas técnicas.

Alguns cases de sucesso brasileiro que ele aponta são os do Magalu, Mercado Livre, Ambev, Embraer, Raízen, e de bancos como Itaú, Bradesco e Banco do Brasil. Os usos vão desde logística, modelos de negócios baseados em robôs, robôs de alta precisão e montagem assistida, Automação Robótica de Processos (RPA, na sigla em inglês), dentre outros.

Camargo diferencia o papel da inteligência artificial generativa — restrita a interfaces e orquestração de sistemas — e da IA aplicada à automação industrial, que permite ajustes em tempo real, manutenção preditiva e reconfiguração de linhas produtivas. No varejo e na logística, isso se traduz em previsão de demanda mais precisa, menor capital imobilizado e maior capacidade de resposta ao mercado, viabilizando operações 24/7 e centros logísticos altamente automatizados.

Ambos os especialistas convergem na análise do impacto sobre o trabalho. Em vez de empregos “que desaparecem”, Tadeu defende a requalificação da força de trabalho, já que a transição para modelos totalmente autônomos depende de ajustes regulatórios e de supervisão humana qualificada. Camargo acrescenta que robôs substituem tarefas, não trabalhos inteiros, sobretudo em ambientes complexos como a construção civil. O risco maior, segundo eles, ocorre quando a velocidade da automação supera a capacidade de requalificação.

Agronegócio

No agronegócio, onde o Brasil é líder global, a robótica já redefine eficiência e sustentabilidade por meio de drones, sensores inteligentes e agricultura de precisão, permitindo decisões baseadas em dados e uso mais racional de insumos. As barreiras, porém, permanecem claras: conectividade, financiamento e capacitação técnica. Para os dois professores, o equilíbrio entre ganhos de eficiência e inclusão produtiva dependerá menos da tecnologia em si e mais das escolhas institucionais, da educação técnica e de políticas de Estado voltadas à atualização permanente da mão de obra.

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