A participação da indústria no PIB brasileiro caiu de 27% em 1985 para menos de 12% em 2023. Essa retração não representa apenas uma transformação estrutural: evidencia o esvaziamento de um modelo que, por décadas, negligenciou inovação, previsibilidade regulatória e integração competitiva às cadeias globais.
Diante disso, o programa Nova Indústria Brasil, anunciado pelo governo federal, acerta ao mirar o futuro — mas dependerá de ajustes imediatos no presente para ser eficaz.
O plano prevê R$ 300 bilhões em financiamentos até 2033, mobilizando investimentos públicos e privados em seis missões estratégicas. O foco está na neoindustrialização verde, digital e inclusiva. Mas nenhuma política industrial terá êxito sem um ambiente de negócios funcional, com segurança jurídica, racionalidade tributária e respeito aos contratos.
Não basta estimular a produção com metas e crédito: é preciso remover os obstáculos que tornam o Brasil um dos países mais caros e imprevisíveis para se produzir. Empresários não pedem proteção. Pedem coerência, agilidade e estabilidade.
A indústria nacional tem capacidade tecnológica e vocação produtiva, mas opera sob o peso de incertezas regulatórias, morosidade decisória e uma taxa de juros que continua asfixiante. De pouco adianta ampliar linhas de crédito se o custo do capital inviabiliza a inovação e desencoraja o investimento produtivo de longo prazo.
A ênfase exclusiva no consumo como motor do crescimento também é um erro que o país já deveria ter superado. Os ciclos recentes mostram que gastos públicos desordenados, ausência de planejamento e falta de revisão de despesas comprometem a credibilidade fiscal e tornam qualquer estratégia de industrialização vulnerável a retrocessos.
Política industrial não é instrumento anticíclico. Requer visão de longo prazo, rigor técnico e disciplina institucional. Por isso, a parceria com o setor privado precisa ir além dos anúncios e tornar-se uma prática estrutural.
A Esfera Brasil, que tenho a honra de presidir, atua nesse sentido: promovendo o diálogo institucional entre empresários, reguladores e formuladores de políticas para que as reformas regulatórias avancem com foco em produtividade e competitividade. Não se trata de conceder subsídios — trata-se de remover ineficiências.
A guerra comercial deflagrada recentemente pelos Estados Unidos contra produtos chineses abriu uma janela geopolítica que o Brasil não pode desperdiçar. Em um mundo
que fragmenta cadeias de suprimentos, países com estabilidade institucional, vocação produtiva e previsibilidade legal ganham vantagem estratégica. Aproveitar esse momento exige mais do que boas intenções — exige execução disciplinada e confiança institucional.
O Nova Indústria Brasil é um passo relevante. Mas, para transformar ambição em entrega, ele precisa ser ancorado por um marco regulatório moderno, uma política fiscal coerente e um pacto institucional com quem produz.
A melhor política industrial ainda é aquela que respeita o investidor, estimula a concorrência e entende que desenvolvimento duradouro se faz com estratégia e racionalidade.